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11 de fevereiro de 2015

Suíte em Quatro Movimentos, Ali Smith

Os livros que eu mais leio como forma de entretenimento são, sem dúvida, os YAs. Mas de vez em quando gosto de escapar um pouco desse universo e me arrisco em outros gêneros, o que aconteceu quando li Suíte em Quatro Movimentos, um livro adulto, com uma escrita belíssima, mas que infelizmente não me fisgou.

A narrativa se divide em quatro partes, ou como o título sugere, em quatro movimentos, e cada uma delas vai focar em um determinado personagem que acaba se interligando com a narrativa "principal". Não que aqui haja uma narrativa principal ou um protagonista, e o genial na história está aí: você começa lendo e achando que determinada pessoa dentro da trama é o protagonista, mas aí surgem contextos que não dá mais para saber quem protagoniza e quem coadjuva o enredo.

A premissa que temos é de Mike Garth, um homem que vai jantar na casa de conhecidos de um homem que ele acabou de conhecer. É um pouco estranho? Talvez, mas quando se trata desse livro você perde toda a noção do que é estranho e do que não é. Enfim, Mike vai jantar na casa dessas pessoas e no meio do jantar ele se retira da mesa, sobe as escadas até o primeiro andar e se tranca em um quarto de hóspedes. Esse é o primeiro movimento da história e a partir dessa base a narrativa é construída. Os outros movimentos vão narrar a vida de outros personagens que se ligam em algum momento com a história de Mike.

A narrativa de Ali Smith é densa e por muitas vezes pegava o livro para ler e me cansava muito fácil, pois você precisa dar uma atenção maior ao que está acontecendo na trama, pois qualquer detalhe perdido pode fazer com que a leitura fique confusa e perca a essência. O terceiro movimento, onde encontramos a história de May Young, uma senhora muito peculiar, que tem toda uma carga de vida em seus ombros, me deixou muito confuso a príncipio, pois a autora faz um jogo entre passado e presente que não parecem se conectar, mas quando a história "se fecha", a personagem me tocou muito. É surpreendente.

A genialidade da autora encontra-se em sua escrita: Smith tece diálogos como poucos,  ela trasmite uma delicadeza e ao mesmo tempo uma força nas falas dos personagens que fazem a história ganhar uma força surreal. A personagem Brooke, por exemplo, é uma criança que tem uma mentalidade absurdamente a frente da sua idade, mas que possui uma inocência que é perceptível e isso rende cenas fantásticas e diálogos muito bem construídos. O meu desejo era adotar a menina pra mim de tanto que a amei...

O quarto e último movimento é focando Brooke e é quando o que precisa se encaixar se encaixa, e o que não precisa, é deixado no ar. Gostei muito de como a autora fecha a trama, fazendo com que o leitor reflita um pouco sobre tudo o que acabou de ler. 

Não há como negar a originalidade de Ali e sua maestria em escrever boas cenas. Talvez pelo fato de não estar acostumado com sua narrativa, tenha achado um pouco denso e complicado em algumas partes, mas quero muito conhecer outros trabalhos da autora, pois seus diálogos me deixaram encantado com tamanha grandiosidade. Adorei. 

Autora: Ali Smith
Páginas: 288
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras

SINOPSE: Imagine a seguinte situação: você está dando um jantar e um amigo de uma amiga traz à sua casa um conhecido dele que você não conhece. Imagine que depois de comer o prato principal esse estranho suba as escadas, tranque-se no quarto de hóspedes e recuse-se a abrir a porta. Talvez você não consiga tirá-lo de lá por dias, semanas, meses. Talvez ele nunca mais saia da sua casa. 
Dividido em quatro surpreendentes movimentos, o romance de Ali Smith se desenrola a partir da noite em que Miles Garth se tranca em um quarto de uma casa de uma família aristocrática de Greenwich, na Inglaterra, e passa a se comunicar com o mundo exterior passando bilhetes por debaixo da porta. 
Uma narrativa carregada de ternura e ironia, que explora a linguagem em todas as suas possibilidades e põe em evidência o absurdo da existência humana. 

10 de fevereiro de 2015

Sete Anos, Fernanda Torres


Fernanda Torres tem um talento genético, tá na veia. Talento esse que se mostrou nos palcos, no cinema e na televisão. Tendo ganhado inúmeros prêmios e feito estômagos doerem de tanto rir com suas comédias, a maestria de Torres é inegável e inestimável. Surpreendeu a todos quando decidiu entrar no mundo literário e em 2013 lançou seu primeiro romance. Fim. Foi uma estreia digna (tem resenha minha lá no No Universo da Literatura, clique aqui e confira), que só uma pessoa com brilho próprio poderia ser capaz de fazer. Fernanda é Sol. Irradia luz por onde passa e contagia todos com seu calor e sua vivacidade. Foi por causa dessa luz que passei a admirar Fernanda Torres como uma artista completa. Foi isso que me fez ficar ansioso por Fim e ainda mais por Sete Anos, depois que constatei de fato seu talento como autora.

Sete Anos é um compilado de crônicas escritas e, a maioria, publicadas durante sete anos de sua vida. Uma curiosidade é que, enquanto lia a reportagem da revista Ler & Cia, na qual ela é a capa da edição de Janeiro/Fevereiro, descobri que Sete Anos era pra ter vindo antes de Fim, porém, sabemos que isso não aconteceu e só temos a agradecer essa mudança, já que tivemos uma experiência incrível adiantada em talvez muito tempo. Sorte a nossa.

Desde a primeira crônica, Kuarup, na qual ela retrata o tempo que passou no Alto do Xingu para as gravações do filme Kuarup, com comida e acomodações precárias, pude perceber que sua escrita estava diferente. Não pior, não melhor, mas diferente. Confesso que isso me deixou um pouco desconfortável e achei que o meu ritmo de leitura diminuiu por conta disso. A escrita estava mais rebuscada, cheia de referências e ironias que me assustaram no começo. Em algumas crônicas esse desconforto voltava a aparecer, principalmente quando era sobre um assunto que eu desconhecia ou não tinha interesse, mas eu me acostumei com a sua maneira diferente de narrar.

Desde a Playboy da Leila Diniz, passando pelas pornochanchadas, revivendo histórias de trabalhos, falando de política, fazendo uma análise sobre House of Cards (♥), homenageando amigos que brilharam aqui e hoje brilham em um outro plano, Fernanda passeia por diversos momentos de sua vida e em várias passagens me peguei rindo de suas tiradas e em outras me emocionando com suas palavras. Este livro mostra uma Fernanda Torres por ela mesma. Nua, crua, real. Como não se emocionar com a carga de emoções da crônica Despedida, onde ela relata os últimos momentos com seu pai, Fernando Torres, de uma forma tão sincera e tão nua, crua e real? 

Daqui a um tempo, alguns anos talvez, relerei este livro. Talvez com uma carga cultural maior eu compreenda mais as referências e não fique tão desconfortável como fiquei em algumas das crônicas apresentadas aqui. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Sete Anos não é nem de longe um livro fraco. Pelo contrário, é forte. Não há como ler essas crônicas sem aprender uma ou outra coisa com a autora. Isso é incrível. 

Fernanda é um diamante. Tenho orgulho dela ser do Brasil e do Brasil ser da Fernanda. São mais joias assim que a literatura brasileira e o entretenimento precisam. E repetindo o que eu fiz no final da resenha de Fim, um grande salve a Fernanda Torres, essa gênia que ainda tem muito a acrescentar na nossa cultura. Amo demais!

Autora: Fernanda Torres 
Páginas: 192
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras

SINOPSE: A entrada em cena de Fernanda Torres no mundo das letras foi apoteótica. Seu primeiro romance, Fim, lançado em novembro de 2013, cativou centenas de milhares de leitores pelo Brasil, atraiu a atenção e diversas editoras ao redor do mundo e ainda foi elogiado pelos críticos mais prestigiados do país. Era de esperar que suas crônicas não demorassem a sair. Desde 2007, Fernanda tem mantido assídua relação com a imprensa. Estreou na revista piauí, assumi uma página quinzenal na Veja Rio e em seguida uma coluna mensal na Folha de S.Paulo. Sete anos reúne parte dessa contribuição. São pensamentos divertidos e reveladores sobre cinema, teatro, política, família e assuntos do cotidiano. Há ainda um texto inédito: o pungente “Despedida”, que trata da morte de seu pai. Os leitores de seu romance e de suas colunas na imprensa, seu público na TV e no teatro, todos encontram neste livro o tom confessional, o carisma a inteligência aguda e o olhar irônico que fazem de Fernanda Torres uma das artistas mais brilhantes de nosso tempo.

18 de janeiro de 2015

Dias Perfeitos, Raphael Montes


Foda. Eu juro que tentei encontrar outro adjetivo que resumisse esta história, mas não encontrei. Dias Perfeitos é basicamente intenso, perturbador, incrível, sensacional, louco, insano. Foda. No maior grau de intensidade que essa palavra pode ter. Raphael soube como amarrar e amordaçar o leitor junto à trama e fazer com que não conseguíssemos escapar de nenhuma maneira. Ele usou e abusou da narrativa e fez com que ela se tornasse completamente estupenda em seu total. É por essas e outras que tenho certeza de que ainda ouviremos falar muito de Raphael Montes e seu dom extraordinário: escrever boas histórias. 

Desde o primeiro capítulo da trama pude perceber uma ousadia na escrita de Raphael, um tom sombrio em cada frase que só se intensificou ao longo da história e me fez querer mais daquilo. Téo é um personagem hipnotizante e você acaba sendo levado pela sua loucura durante a leitura. Não há como prever o que vai acontecer, tanto as atitudes do protagonista como o desenvolvimento do enredo são muito imprevisíveis e isso dá um toque de suspense que deixa a narrativa ainda mais frenética e alucinante.

A narrativa de Montes é muito rápida, ágil, intensa e a sensação que tinha era de estar dentro de um filme de ação misturado a um suspense psicológico e o resultado era um frenesi de emoções que me traziam uma ansiedade absurda por querer saber o que viria em seguida. Ao mesmo tempo que achei a escrita de Raphael absurdamente incrível, fiquei com medo do poder que as palavras tinham na narrativa e isso me deixava em posição de defesa, esperando o bote que eu não sabia se viria. 

A obra tem como pano de alguns pontos conhecidos do estado do Rio de Janeiro e todas as cenas e a ambientação da trama dão à história um charme sombrio. Acredito que quem conhece os lugares referidos deve ter tido uma sensação ainda mais power por saber detalhes e imaginar toda a trama nesses locais. 

Como disse anteriormente, a imprevisibilidade da história é angustiante e essa característica é levada até a última página da história. O final sem dúvidas é um dos melhores finais de livros que já li por ser surpreendentemente sensacional. Fiquei olhando aquelas linhas boquiaberto e sem reação. Podia ter imaginado muitos términos e fiz algumas teorias mas em nenhum momento o que aconteceu me passou pela cabeça. Até quem não gostou do final não pode dizer que é um final fraco. É um final à altura de toda a história. FODA!

Autor: Raphael Montes
Páginas: 278
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras

SINOPSE: Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.


19 de dezembro de 2014

Put Some Farofa, Gregório Duvivier

Depois que minha professora de arte do ensino médio contou que adorava andar de bicicleta na chuva e que a sensação era libertadora, sempre tive essa vontade de experimentar essa Sensação com S maiúsculo. Chuva vinha e chuva ia e eu nunca me lembrava de pôr em prática meu desejo. Até que hoje, assim que começou a chover, decidi que estava na hora de enfrentar a enxurrada e, sob protestos de minha mãe, “você vai pegar uma gripe, moleque”, peguei a bicicleta e fui andar no meu bairro. 
Ela tinha razão. Foi uma das sensações mais libertadoras que já senti e enquanto meu medo de pular de para-quedas impede essa sensação de ser maior, me satisfiz, e muito, com a pedalada na chuva.

Aí você me pergunta: o que isso tem a ver com este texto? Simples: enquanto estava na chuva me lembrei que hoje mais cedo havia terminado de ler um dos livros mais libertadores desse ano e quiçá (sempre usar a palavra quiçá em uma frase) da minha vida. Put Some Farofa. Um compilado de crônicas e esquetes do aprendiz de gênio Gregório Duvivier. E é sobre isso esse livro que eu quero falar hoje. E não, isto não é uma resenha.

Acompanho Gregório desde o começo do Porta dos Fundos. Não o descobri por acaso: Clarice me trouxe Gregório. E a agradeço cada vez que leio um de seus textos. Sempre o achei genial em suas tiradas. Assisti várias, não digo todas, entrevistas que ele deu na tv. Algumas vezes penso que ele deveria aparecer mais nessa mídia, mas aí me dou conta que Gregório é tão autossuficiente que nunca precisou disso. A TV é que deveria ir até o Gregório, não o contrário. 

Foi vendo um vídeo e lendo uma crônica que aos poucos fui admirando cada vez mais o trabalho desse autor-ator-roteirista-humorista-cronista e todas as mais istas e ores que ele pode ser. Foi dessa admiração que eu senti a necessidade de ler Put Some Farofa.
Se eu não achasse esse termo um tanto quanto inadequado e de duplo sentido, afirmaria que li Put Some Farofa em uma sentada. É fácil gostar do que Gregório escreve, não há nenhuma parafernália (juro que não foi intencional) em sua escrita, é tudo muito cru e direto. São relatos, divagações, nonsenssisses e outros textos tão geniais que é difícil falar do que mais gostei. Acabava uma crônica com o pensamento convicto: “essa é a melhor crônica deste livro”. Até que eu lia a próxima e a achava melhor que a anterior. Foi assim até o final do livro e quando terminei a última não consegui escolher uma melhor. 

Duvivier é tão fantástico no que faz que me fez rir e chorar e chorar de rir e rir de chorar. Se ele fosse meu amigo, o abraçaria e diria obrigado. Na verdade ele é. Sem querer ele se tornou o melhor amigo durante a leitura. Sem ele saber, é claro. 
Se Gregório não fosse o Gregório e fosse meu amigo, mas mesmo assim existisse um Gregório que fosse o Gregório eu entregaria o Put Some Farofa a ele e diria “lê esse, o cara que escreveu é foda, dá pra ler numa sentada e depois que terminar você vai querer fazer algo libertador. Só cuidado se for andar de bicicleta na chuva, peguei uma gripe com isso...”

Autor: Gregório Duvivier
Páginas: 208
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras

SINOPSE: Don’t repair the mess. The house is yours. I make question. Pardon anything. Go with god. Come back always. Publicada em julho de 2014, a crônica que dá título a este volume, que cria uma conversa imaginária entre um brasileiro e um gringo visitando o Brasil durante a Copa, rapidamente se tornou um viral de internet com mais de 230 mil compartilhamentos, até ser comentada em artigo do Washington Post. 
Trata-se de uma amostra da verve humorística - embebida de zeitgeist, crítica ferina e muito afeto - de Gregorio Duvivier, um dos autores mais inventivos e promissores do Brasil na atualidade. Reunindo o melhor de sua produção ficcional, Put some farofa traz textos publicados na Folha de S.Paulo e esquetes escritos para o canal Porta dos Fundos, além de alguns inéditos. 
Se Gregorio revela o raro dom da multiplicidade, tendo despontado no cenário cultural brasileiro ao mesmo tempo como ator, roteirista, comediante, cronista e poeta, também múltiplo é este volume, que transita entre ficções, memórias de infância, ensaios sobre artistas que o influenciaram, artigos de opinião, exercícios de estilo e experimentações sem fim. Os textos vão da pauta que está sendo debatida naquele dia no jornal ao completo nonsense; do lirismo ao humor escrachado; do íntimo ao universal.
No conjunto, o que espanta no autor é o frescor, a coragem, e, sobretudo, a capacidade inesgotável de se renovar a cada semana, contando sempre com a inteligência e a sensibilidade do leitor.



25 de outubro de 2014

Garoto Zigue-Zague, de David Grossman

Autor: David Grossman
Páginas: 424
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras

SINOPSE: A temática da infância é cara a David Grossman, que escreveu livros como Ver: amor e Duelo. Garoto zigue-zague é um daqueles grandes romances que, embora tematizem a infância e sejam narrados pelo olhar de um personagem jovem, são capazes de conquistar qualquer leitor adulto. Pouco antes de completar treze anos e fazer seu bar mitzvah, Nonny Feierberg — mais conhecido como Nono — embarca em Jerusalém num trem para Haifa, onde deverá encontrar o tio. A princípio, a viagem parece um presente de grego planejado por seu pai, detetive e maior herói de Nono, e Gabi, secretária do Departamento de Investigações Especiais que faz as vezes da mãe que ele perdeu quando criança. Mas Nono nunca chegará de fato ao seu destino. Logo que o trem parte, o garoto embarca numa aventura fantástica na companhia de um sujeito suspeito, mas encantador: Felix Glick. Ao seu lado, Nono conhecerá a atriz Lola Ciperola e passará por experiências mais ou menos terríveis que o ajudarão a compreender melhor sua própria identidade, as fronteiras nem sempre evidentes entre o bem e o mal e as dificuldades de se tornar uma pessoa adulta. 
“‘(...)Sim! Talvez nem todo mundo se encaixe exatamente nessa estrutura escolar quadrada! Pois há garotos redondos, minha senhora, e há garotos gordinhos, e há garotos com formato de, digamos, triângulo, por que não?, e há (...) garotos zigue-zague!’” — página 123.
Talvez esta seja uma das resenhas que eu estou mais inseguro em escrever: quando você gosta tanto de um livro ao ponto de ter medo de não transmitir o quão bom ele é através de uma resenha.  Garoto Zigue-Zague é simplesmente perfeito! 

Nesse romance, David Grossman narra as aventuras de Nono, que sai em uma viagem de trem para descobrir mais sobre si mesmo e sobre o seu passado. A narrativa do autor é tão gostosa de se ler, tão especial e única, que é difícil largar o livro e não se apaixonar por ele. Durante a narrativa o leitor fica atônico para saber o que vai acontecer em seguida e como vai acabar toda a história, mas ao mesmo tempo que essa sede acontece, o desejo que o livro não acabe também dá as caras e você fica naquele conflito interno de querer ler e não querer que a obra acabe.

A narrativa é feita pelos olhos de Nono, um adolescente de 13 anos pra lá de notável, autêntico e singular. Ele é tão bem construído que me surpreende como o autor conseguiu ir tão a fundo na cabeça de um menino e transcrever seus atos e pensamentos. Aliás, este é um ponto fortíssimo do livro: os pensamentos, devaneios e reflexões do menino Nono sobre o mundo ao seu redor. Tudo é carregado por um lirismo, extraordinário por sinal, que falam sobre reconhecimento e conquistas pessoais sem deixar de ter aquela inocência infantil, recheados de uma sutileza sem igual – e sem exageros! A narrativa é realmente fantástica e Grossman consegue carregar sem esforços qualquer leitor para essa viagem surpreendente, mesmo aquele mais relutante em iniciar essa jornada.

Claro que o romance não gira em torno apenas de Nono. Além dele, todos os outros personagens são muito bem construídos e caracterizados: cada qual tem sua particularidade, sua peculiaridade e seu papel certo na história. Entretanto, quem se sobressai realmente e ganha destaque é o garoto. Seu jeito é tão especial que, ao mesmo tempo que tem apenas 13 anos parece que já é um adulto; ele consegue ser travesso, ousado e infantil ao mesmo tempo; como disse anteriormente, pra lá de notável. Um exemplo do que estou falando é perceptível no trecho em que Nono vai à praia: enquanto faz tal coisa (não vou dizer o que para não soltar spoiler) ele parece um adulto, mas o modo como faz e reflete sobre aquilo mostra que ele é apenas um garoto espoleta se divertindo...

Garoto zigue-zague realmente me conquistou. Sabe, às vezes um livro para dar certo não precisa de muita coisa, e neste caso a simplicidade construída em torno da história é de conquistar qualquer um: forte, marcante e riquíssima. Um livro que deveria ser lido por todos. 

Para apreciadores de filmes, atenção: o livro foi adaptado em 2012 para as telas! Dirigido por Vincent Bal, diretor belga, a adaptação ganhou três prêmios em festivais de filme lá fora -Canadá, Estônia e Finlândia- e ainda foi indicado para mais duas categorias, mas acabou não vencendo. Ainda não assisti ao filme, mas pelo trailer parece ser divertido.
“‘(...)Tome cuidado. A sua vida vai ser difícil se for tão bom assim. Tome cuidado com as pessoas, elas são más. As pessoas são como lobos.’” — página 209.




15 de agosto de 2014

Eu sou Proibida, de Anouk Markovits

Autora: Anouk Markovits
Páginas: 264
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras

SINOPSE: Na Transilvânia, em 1939, o pequeno Josef Liechtenstein presencia o assassinato de sua família pela Guarda de Ferro Romena e é salvo por uma empregada gentia, que o cria como se fosse seu filho. Passados mais cinco anos, Josef salva Mila quando os pais da menina são mortos, e a ajuda a chegar à casa de Zalman Stern, um líder da comunidade Satmar que a partir de então a cria como irmã de sua filha mais velha, Atara. À medida que as duas amadurecem, a fé de Mila se intensifica, ao passo que sua irmã descobre um mundo de livros e aprendizagem que não consegue ignorar. Com a ascensão do comunismo na Europa Central, a família muda-se para Paris, onde Zalman tenta criar seus filhos, mantendo-os reclusos da cidade. As escolhas acabam levando as irmãs para caminhos opostos. Partindo da zona rural da Europa Central pouco antes da Segunda Guerra, passando por Paris e chegando a Williamsburg, no Brooklyn dos dias de hoje, Eu sou proibida dá vida a quatro gerações de uma família chassídica. Uma trama aliciante e arrebatadora que revela o que acontece quando amor resoluto, fé inquebrantável e séculos de tradição entram em conflito.

Vou contar pra vocês: terminar o livro para mim foi difícil. Não por ele ser ruim, que de fato não é, mas o problema é que é um livro bastante pesado de ler, no sentido de bastante informação nova, de coisas que não estou acostumado. Cogitei abandoná-lo, mas fui firme, persisti na leitura e de certa forma não me arrependo.

Em Eu sou proibida temos uma narrativa bastante densa que conta a história, principalmente, de Mila, uma órfã em que vai morar na casa de um líder chassídico, Zalman Stern, e que é criada como se fosse a irmã legítima de Atara, filha de Zalman e sua esposa Hannah. Então, a família se mudam para a França, e o rumo que a história e as decisões que os personagens tomam vez ou outra são inacreditáveis e surpreendentes, dentro de uma cultura totalmente distinta da qual estamos acostumados. A impressão que tive é de que a autora passou para o papel a dura realidade de algumas moças judias, que não querem seguir essa rigidez da religião, e sim seguir em frente com a vida bem como pretendem seguir, como querem, serem livres. O livro mostra que “o certo seria a mulher ficar em casa limpando e aprendendo domesticidade, enquanto o homem aprenderia toda a Torá e basearia todos seus estudos e pesquisas sobre Isso.” Mas nem sempre é o que acontece, e quando não acontece dessa forma, Yemach Shemeah – Que seu nome seja apagado, ou seja, a mulher passa a ser vista de uma forma diferente, seu nome torna-se “proibido” e ela é “excluída”.
 “Ela adorava sentir-se como um mero floco naquela imensidão. Os sinos tocaram a hora, então a hora encheu-se de silêncio e ela se encheu de saudade; deveria Paris ser uma mera estação de passagem em suas perambulações? Se Paris tinha um lar em seu coração, não poderia ela ter um lar em Paris?” — página 89.
A narrativa de Markovits é sobre uma história dura, triste e melancólica, baseada na vida da própria autora. No começo fiquei meio perdido com tantos termos novos, e por isso a cogitação em quase abandonar; parecia que eu lia, lia, lia e não saia do lugar. De vez em quando eu tinha que ler duas, três vezes o mesmo trecho para conseguir assimilar a ideia que a autora gostaria de passar. Mas isso foram as primeiras 80 páginas, mais ou menos. Depois disso, consegui me acostumar, de certa forma, com as novas palavras e a narrativa fluiu.

Não tenho como reclamar da edição da Cia, todos os livros da editora são muito bem traduzidos e revisados. No final deste livro há um glossário, para ajudar a entender as palavras em hebraico e iídiche. Não sei se eu li o livro em maus tempos ou o livro não satisfez minhas expectativas ou ainda eu não tive certa maturidade para lê-lo. Mas já vou dizendo: não são todos que vão gostar desta obra – SIM! O livro é uma obra única em que a autora pesa dois lados em uma balança: o que é mais importante, seguir uma religião à risca e satisfazer os costumes para a família não ser mau vista diante à comunidade ou ser livre para fazer suas próprias escolhas e almejar a felicidade? É um livro a ser pensado sobre as escolhas a serem tomadas, ainda mais em uma religião de extrema rigidez que o judaísmo ortodoxo é.

Sabem de uma coisa? Eu sou probida pode enganar muita gente. Pela capa e título, muitos se deixam levar por parecer um livro hot. Entretanto, de hot não tem nada. A história é de certa forma dolorosa, rica e silenciosa do seu modo, muito bem contada de uma cultura totalmente diferente, enriquecendo nosso conhecimento de uma forma bela e ferrenha.


14 de julho de 2014

Caninos em Família, de Kevin Wilson

Autor: Kevin Wilson
Páginas: 392
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras
“O que você ainda vai descobrir, acho, é que as coisas que a gente mais reluta em fazer são justamente as coisas que, quando a gente vai lá e faz, deixam a gente se sentindo muito bem.” — página 85.
Quando solicitei Caninos em Família para a editora, não imaginei que fosse gostar do livro assim. A narrativa de Wilson é tão ampla, acontece tanta coisa na história, que um mundaréu de sensações perpassam durante a leitura: ora você se diverte junto com os happenings dos Caninus, ora sente raiva de Caleb e Camille, ora sente apego aos personagens... Tudo muito bem construído e cada qual no lugar certo e hora certa.

A família Caninus é uma família de artistas que gostam de inovação, originalidade e surpresa para com o público; suas apresentações são públicas e sem o menor aviso de que vão acontecer. Calleb e Camille deram origem a essas apresentações -happenings, como eles chamam- e para tudo ficar completo botaram seus dois filhos -Anna e Buster, ou simplesmente A. e B.- no meio desses eventos, que sem eles nada seria perfeito. O que você nunca imaginou, a família Caninus faz acontecer. Os happenings são tão inusitados e divertidos em sua maioria que você acaba se divertindo junto, tendo as mesmas sensações que os personagens.

Acontece que Annie e Buster não querem mais fazer parte desses happenings e saem de casa; ela para ser atriz e ele para ser autor. Só que fotos dela de peitos de fora no set de gravação vazam na internet e Buster é atingido por uma canhão de batatas na cara (sim, uma batata fumegante! hahahaha), e ambos se veem indo para a casa dos pais depois disso e depois de tanto tempo longe de lá. O que eles não imaginavam era que seus pais estavam preparando o último happening de suas carreiras, uma apresentação misteriosa e audaciosa para fechar com chave de ouro suas carreiras. Só que algo acontece durante esse número e os filhos não sabem se isso também faz parte do show dos pais ou se foi real, realmente aconteceu. 

O livro tem narrativa alternada, ora narrado por Annie e ora por Buster, e entre um e outro a narrativa volta no tempo para abrir espaço aos happenings dos Caninus e mostrá-los para o leitor. Os personagens, principalmente Annie e Buster, são tão cativantes que eu me apeguei tanto aos irmãos que não queria me despedir deles quando o livro estava acabando. Kevin Wilson consegue mostrar como as ações de um passado teatral refletiram na vida adulta dos irmãos, a insegurança passada por não saber discernir o que era real e e o que fazia parte das apresentação dos Caninus...
“‘Isso é o que a gente faz. Isso é o que os Caninus fazem. Fazemos coisas estranhas e memoráveis.’” — página 140.

Apesar do final não ser um dos melhores que já li, não tem como não gostar do livro como um todo em si, seja pelos personagens cativantes ou pela leitura leve, divertida, original e criativa de Kevin Wilson. Vocês também deveriam conhecer a família Caninus, com artistas que têm amor ao que fazem, com alguns parafusos soltos na cabeça sim, mas que dão a vida pela arte e à família. Recomendo a todos!

Uma curiosidade é que o direito de adaptação do livro foi comprado, e o filme (sem previsão de estreia ainda) vai ser dirigido por Jason Bateman (ator de Quero matar meu chefe, Uma ladra sem limite e da série Arrested Development), e na escala de atores estão o próprio Bateman, Nicole Kidman (The Paperboy, Moulin Rouge!, Esposa de mentirinha e A feiticeira) e Christopher Walken (Sete psicopatas e um Shih Tzu, Amigos inseparáveis, Penetras bons de bico e Click). A escalação de atores é forte, vamos ver se o filme fará jus ao livro :) 
“‘O que eu estava tentando dizer (...) é que essas performances de vocês são infinitamente complexas. Passado o choque inicial que a encenação causa no espectador, tem uma coisa que, quando você olha mais de perto, logo vem à tona.’
‘E que coisa é essa?’, indagou Annie (...)
‘Uma tristeza, uma espécie de desalento por vocês saberem que estão impondo essas ações a pessoas desavisadas.’” — página 78.

2 de julho de 2014

A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli

Autora: Socorro Acioli
Número de páginas: 176
Ano: 2014
Editora: Companhia das Letras

SINOPSE: Pouco antes de morrer, a mãe de Samuel lhe faz um último pedido: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Mesmo contrariado, o rapaz cumpre a promessa e faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia, sofrendo todas as agruras do sol impiedoso do sertão do Ceará. 
Ao chegar àquela cidade quase fantasma, ele encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são as preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor. 
Seu primeiro contato na cidade será com Francisco, um rapaz de quem logo fica amigo e que resolve ajudá-lo a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. Antes parada no tempo, a cidade aos poucos volta à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito de Samuel. Em meio a esse tumulto, ele ainda irá se apaixonar por uma voz misteriosa que se destaca entre as tantas outras que ecoam na cabeça do santo.


Desnudei "A Cabeça do Santo"! Hahahahaha. Sim, o livro da foto é o mesmo da capa lá no começo do post, ele só está sem roupa, ou melhor, sem a jacket amarela, e linda, que o "veste", arte da querida Companhia das Letras que apostou em um exemplar diferente e deu certo. O livro tá lindo!

Conheci Socorro na época em que A Bailarina Fantasma apareceu na blogosfera. Lembro de ter lido algumas resenhas da história e me interessado bastante pela trama. O tempo foi passando e eu acabei não tendo a oportunidade de ler o infantojuvenil da autora. Até que o destino, ou melhor, a Companhia das Letras, trouxe Socorro de volta aos meus desejados quando anunciou o lançamento de A Cabeça do Santo. Capa e sinopse logo me ganharam e eu sabia que era o momento de me aventurar com uma história da cearense. Foi o momento certo.

Devorei a obra em um dia. Não existia a possibilidade de eu ir dormir sem saber o que aconteceria com os personagens e que rumo Acioli daria à história. Ah, e que narrativa deliciosa tem Socorro. O livro é relativamente curto e isso fez com que a leitura fosse ainda mais rápida. A autora possui um carinho com as palavras que faz a diferença e deixa tudo mais leve, é perceptível o amor que ela possui pela literatura e o quanto escrever é importante pra ela. Além disso, eu notei um fator inusitado na obra: sua brasilidade. 

Eu não costumo ler clássicos brasileiros, mas sempre estou lendo algum nacional da atualidade e é a primeira vez que vejo o nordeste sendo retratado em uma história brasileira atual, o que é ótimo, pois mostra um Brasil diferente dos que estamos acostumados a ver. Quando não o universo fantástico, o foco das obras nacionais é mais a região de São Paulo e Rio de Janeiro. Sinto falta dessa variedade de culturas nacionais nas obras brasileiras mais recentes, que era muito presente nos clássicos e foi se perdendo devido a essa modernidade americanizada. É sempre bom conhecer algo diferente, mesmo que ficcionalmente, já que a cidade onde a trama se passa é inventada. Por isso, pra mim, a história da cabeça do santo tem um sabor especial a mais por causa disso. 

E além desse cenário de fundo os personagens da obra são fortes e inicialmente caricatos, mas isso vai mudando conforme o decorrer da história. O protagonista Samuel, por exemplo, dividiu minha opinião durante a história, em alguns momentos eu tinha um pé atrás com sua personalidade, mas no geral ele é um bom personagem, todo audacioso e levado pelo dinheiro a ganhar vantagem em cima das pessoas.
Há também a presença de um romance na trama, que é bem superficial e ganha mais destaque no fim, mas que me convenceu. Como tudo é muito rápido dentro da história, a parte amorosa veio no tempo certo e fechou bem com a narrativa.


A Cabeça do Santo é um daqueles livros que não consegui encontrar um ponto negativo que fosse relevante a se discutir nesta resenha. O livro tem uma ou outra coisa que eu achei desnecessária ou forçada, mas são tão pequenas em comparação a grandiosidade da obra que não dá nem pra reclamar que o número de páginas é pequeno porque a história tem o tamanho ideal. É claro que se tivesse mais trama, e consequentemente mais páginas, a se desenrolar ali seria demais, mas o livro é totalmente casado. E aí entramos em outro ponto da escrita de Socorro que me chamou muito a atenção. Toda a trama é entrelaçada, costurada, dado ponto cruz e quando você acha que ali vai ter um nó cego, Socorro acha um jeito de desatá-lo e a história termina com todos os desfechos concluídos e nada é deixado pra trás. Como não amar? <3

Adorei esse primeiro contato com a escritora e com certeza a partir de agora acompanharei tudo que ela lançar. E pra quem gosta de um livro bem brasileiro, rápido e com uma história pra lá de divertida, A Cabeça do Santo é a união de tudo isso e um pouco mais. Tá mais que recomendado!


22 de março de 2014

A Quase Honrosa Liga de Piratas: O Tesouro da Encantadora, de Caroline Carlson

Autora: Caroline Carlson
Número de páginas: 400
Ano: 2014
Editora: Seguinte

O Tesouro da Encantadora é o primeiro livro da série A Quase Honrosa Liga de Piratas, e será lançado pela Editora Seguinte no dia 31 de março.

Hilary Westfield é uma garota da alta sociedade do reino de Augusta. Seu pai é um importante almirante da Marinha e seu destino é se tornar uma bela dama da alta classe do reino. Mas isso não é nem de longe o que ela quer. A menina sonha em se tornar uma pirata e se aventurar pelos sete mares em busca de aventuras e tesouros perdidos. Entretanto, os empecilhos que dificultam o projeto de Hilary são muitos, e o primeiro deles é que aa de Ligas de Piratas do reino não admite garotas entre o clube de malfeitores.

A protagonista se vê então a caminho da Escola de Aprimoramento da Senhorita Pimm para Damas Delicadas, onde aprenderá a bordar, valsar, desmaiar elegantemente e muitas outras facetas de uma verdadeira lady. 

Ainda determinada a se tornar uma verdadeira pirata, Hilary vê em um cartaz no Mercado de Pemberton a oportunidade que ela sempre sonhou: um anúncio de um pirata autônomo a procura de membros para a sua tripulação. E é aí que ela se vê em sua tão sonhada aventura pelos mares de Augusta, em busca do tesouro mais cobiçado do reino: o tesouro da Encantadora. 


Ah, o poder dos infantojuvenis... que saudade dessas histórias tão despretensiosas, onde o vilão é engraçado e cenas tão simples têm um poder tão encantador.

Como a maioria dos leitores, durante toda a minha vida literária passei por várias fases de gêneros literários. Tive épocas de só ler policiais, outra que só queria ler chick-lits e, como não poderia deixar de ter, tive a época de só ler infantojuvenis. Eram sempre histórias divertidas, intensas e eu adorava me aventurar com toda aquela animação que esse tipo de obra proporciona. Quando conheci O Tesouro da Encantadora, me lembrei dessa fase da minha infância/pré-adolescência em que esse gênero predominava a minha estante e me bateu uma saudade desse tipo de história que eu senti a necessidade de ler, até como uma forma de eu avaliar se essas tramas ainda me conquistavam. Ah, se eu soubesse...

Bom é quando você cria expectativa com alguma história e ela cumpre tudo o que promete. Melhor ainda é quando você encara uma obra sem nenhuma pretensão e o enredo te fascina. Por ter ficado tanto tempo sem o contato dos infantojuvenis, não sabia qual seria a minha reação com esse tipo de livro, então eu relaxei e deixei a trama me levar para poder apreciar a leitura. Não deu outra, além de me apaixonar pela história, fiquei com vontade de ler mais aventuras do gênero. <3

O Tesouro da Encantadora é uma obra bastante característica dos infantojuvenis: a narrativa é extremamente dinâmica, rápida e agitada. A impressão que tive foi de haver uma energia oculta nas palavras da autora que transbordou das páginas e me contagiou ao ponto de me fazer devorar os capítulos para saber o que acontecia em seguida.

A obra se constrói em alguns pilares clichês, mas com o decorrer dos acontecimentos percebi uma inovação, um quê original no modo como a autora conduziu algumas cenas. A despretensão do enredo no início, por exemplo, vai desaparecendo e vai-se criando uma estrutura mais séria, com um objetivo certo, mas sem perder o humor e a leveza da narrativa. 

Sobre os personagens, achei-os bem caricatos, mas não foi difícil me afeiçoar a eles. As características de cada um faziam com que ficassem verdadeiros, reais. A protagonista com sua teimosia, a sua garra em conseguir o que almejava, mas ao mesmo tempo, com sua ingenuidade e imaturidade conseguiu me cativar logo de cara e passei a história inteira torcendo para que ela obtivesse êxito em suas aventuras.
Agora, a Gárgula de Hilary e a srta. Greyson ganharam definitivamente meu coração. A primeira me fez rir do começo ao fim da obra com seus devaneios e atrapalhadas. Já a segunda conquistou meu s2 por toda a sua sabedoria e a forma com que ela lidava com toda a aventura; é uma personagem muito importante para a trama e ver a sua transformação devido aos acontecimentos é simplesmente encantador. 

E como não mencionar todos os detalhes incríveis que o livro possui em seu interior? As cartas enviadas, os bilhetes trocados, os avisos, as matérias dos jornais, os anúncios, tudo isso é feito de forma muito minimalista e confere à leitura uma dinamicidade ainda maior. Além disso, cada começo de capítulo conta com um desenho referente a história. É muito amor...

Se você está em busca de um livro bom, divertido, cheio de ação e que te prenda à história, A Quase Honrosa Liga de Piratas: O Tesouro da Encantadora é a pedida ideal. Já quero o segundo!





2 de fevereiro de 2014

Parceria: Companhia das Letras

Fala, galera, tudo bem com vocês? Hoje eu tô aqui para anunciar uma novidade incrível: o blog agora é parceiro da Companhia das Letras <3
Sempre fui um admirador do trabalho incrível que eles realizam e poder estar entre seus blogs parceiros é algo sem explicação. Muito obrigado à editora pela confiança depositada em mim e ao Jantando Livros, que essa parceria seja muito promissora *-*
Conheçam um pouco mais sobre a Companhia:

A Companhia das Letras foi fundada em 1986. Desde então já publicou mais de 3 mil títulos, de 1500 autores, incluindo os lançamentos dos outros selos da editora: Companhia das Letrinhas, Cia. das Letras, Companhia de Bolso, Quadrinhos na Cia., editora Claro Enigma e Penguin-Companhia.

Em 2012 foi anunciada a criação de 4 novos selos: Editora Paralela, voltada para a publicação de livros de entretenimento destinados ao grande público; Editora Seguinte, o novo selo jovem da Companhia das Letras; Portfolio Penguin, que atua na área de negócios, política e economia; e Boa Companhia, série que reúne, em antologias temáticas, grandes nomes da literatura nacional e estrangeira.


A Companhia das Letras evoluiu muito nesses 27 anos, mas sem perder de vista o respeito à inteligência do leitor. Hoje em dia lança mais de 300 títulos por ano, de diversos assuntos e estilos, mas sempre com uma mesma proposta: a vontade de publicar livros que, pela qualidade do texto e da produção gráfica, sejam um convite à leitura.


Confiram alguns dos sucessos das editoras: 


Acompanhem as editoras nas redes: 

Companhia das Letras: Site| Facebook | Twitter | Blog | Youtube | Instagram
Seguinte: Site | Facebook | Twitter
Paralela: Site | Facebook

Estou tão animado *_________*, vamos que vamos!
Espero que tenham gostado, até a próxima \o/

27 de dezembro de 2013

Persépolis.


Persépolis, uma das narrativas mais lindas, tristes e transformadoras que tive a oportunidade de ler em 2013. A história de uma iraniana desde a sua infância até a vida adulta. O drama de um país opressor, em constante guerra. Um livro sobre perdas, e como você tem que lidar com elas. Superá-las. Ou ao menos tentar. Uma trama autobiográfica que mostra as alegrias e tristezas de uma família que pensa pra frente em um lugar cheio de restrições. Uma personagem que vai tocar seu coração e te fazer repensar muitas coisas em sua vida. E talvez até te faça chorar. Acredite, não é tão difícil. Não com esta história.

Em quadrinhos em preto e branco, a obra de Marjane Satrapi, de forma bastante rápida e dinâmica nos apresenta a menina Marjane, uma iraniana muito curiosa, que cresceu ouvindo histórias do pai sobre a política do país e tudo o que já aconteceu no Irã. Sempre muito esperta, até os seus 10 anos de idade ela teve uma vida livre, até ser obrigada a usar o véu islâmico e estudar em uma sala de aula só de garotas. Ela estava lá quando seu país entrou no regime xiita, e viu quando tudo mudou. 

O livro é extremamente tocante, pois mostra todos os destaques da vida de Marjie, seus medos, inseguranças, tudo o que ela e seu povo passaram em seu país. Guerras, mortes, escassez de comida, repressão, proibição a liberdade, e muitos outros problemas são mencionados e vividos na trama de Satrapi. Ela cresce vendo tudo isso, e desde cedo precisa lidar com perdas. Precisa ser forte. 

E a história não se foca apenas na política e guerra do Irã, é claro que esse é o motivo principal para tudo tomar o rumo que tomou, mas a vida de Marjane é o centro, e quando ela cresce, suas preocupações se tornam outras, o livro enfoca suas paixões, rebeldias, sonhos, planos, e toda a responsabilidade que a vida adulta traz.

A autora conseguiu colocar tantos sentimentos na narrativa que a história se torna um misto de várias características contraditórias que fazem com que o livro seja uma obra fantástica, emocionante e arrebatadora. Persépolis é triste, mas tem um humor que acompanha a trama, inocente, espontâneo. A obra é simples, mas é complexa; é doce, mas possui um contexto amargo, forte; é rápida, mas tem uma carga densa. Entende o que eu estou falando? É uma literatura tão rica, profunda...

LIVRO X FILME


Os dois valem a pena. Apesar de o quadrinho ter me passado uma emoção maior, o filme é praticamente igual ao livro, ressalva para algumas partes que na obra impressa são mais detalhadas e no longa é passado bem rápido, mas isso é comum em toda adaptação, a trama e todas as suas peripécias foram mantidas.
Sabe quando você termina de assistir ou de ler algo extremamente fascinante e acha que todo mundo deveria ter a mesma experiência? Persépolis. Foi assim que eu me senti. O mundo inteiro precisa conhecer a trajetória de Marjie. Então, se você gosta de história mundial, drama e/ou biografia, tanto livro quanto filme têm que entrar na sua lista de desejados. Sério, você não vai se arrepender.

MARJANE SATRAPI por MARJANE SATRAPI


A autora contou sua própria história de um jeito simples, mas a carga de sentimentos que ela exprime em seus desenhos e palavras transbordam das páginas e vão direto para a alma do leitor; é quase impossível conhecer a vida dessa personagem e não sentir uma compaixão, ternura por tudo o que ela passou.

Obrigado, Marjane.

*Ah, esqueci de falar, o exemplar que eu li de Persépolis peguei na biblioteca do meu colégio. Deem uma procurada na de vocês! \o/*

19 de novembro de 2013

Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple

Essa resenha foi escrita para o blog No Universo da Literatura, onde sou colaborador.

Número de páginas: 376
Editora: Companhia das Letras

A família Branch não é o que podemos chamar de modelo para a sociedade: o pai, Elgin, é um gênio da programação que trabalha na Microsoft e não tem tempo de cuidar da casa. A mãe, Bernadette, é uma mulher misteriosa, com muitas manias, que já não aguenta mais a vida em Seattle. E tem Bee, a filha, que é a aluna mais inteligente da escola Galer Street e está prestes a se formar do ensino fundamental.

Quando Bernadette e Elgin prometem à Bee um presente especial de formatura por sempre ter tirado notas excelentes, não imaginariam (ok, com Bee não dá para se prever muita coisa) que ela pediria uma viagem à Antártida. SIM, À ANTÁRTIDA!!!

Agora, Bernadette, que faz qualquer coisa para não ter que sair de casa, vai ter que dar um jeito de não viajar. Com medo de encarar o navio, convívio social e a temida passagem de Drake, a excêntrica mãe de Bee toma uma atitude séria: ela desaparece. Agora Bee vai fazer de tudo para encontrar Bernadette, mas antes disso talvez ela precise conhecer melhor a mulher que sempre amou tanto.

Despretensão. Essa é a palavra que descreve muito o começo de Cadê você, Bernadette?. Mas não se iluda, o livro é cheio de surpresas que vão fazer você se apaixonar pela brilhante história criada por Maria s2 Semple. 

Com várias trocas de e-mails, bilhetes e recados corriqueiros entre personagens no início da história, conhecemos um pouco mais de cada um, seja pela visão deles próprios ou de terceiros, o que faz também com que enxerguemos diferentes lados da mesma pessoa.

Maria Semple conseguiu em sua narrativa conquistar o leitor aos poucos. A história toda vai te prendendo de mansinho, te ganhando aos poucos, e quando você se dá conta, o livro terminou e cai a ficha da grandiosidade do que acaba de ser lido. A autora possui um charme realista para descrever cenas e personagens que poucos conseguem, eu senti, nas palavras da autora, um amor verdadeiro entre mãe e filha, apesar de todos os defeitos de Bernadette, consegui sentir o quanto Bee era importante para ela, e mais ainda, o quanto Bernadette era importante para Bee. 

E se no começo da narrativa existiam personagens caricatos, a autora dá um jeito de sacolejar a história e tornar tudo e todos muito imprevisíveis. E aí entramos em outra característica forte de Cadê você, Bernadette?: a imprevisibilidade. Sabe quando você se sente totalmente à deriva, sem saber para onde a história vai, sem saber como tudo aquilo vai se resolver e aí vem a genialidade de Semple e dá um rumo inesperado e ao mesmo tempo fascinante para a trama e te faz ficar boquiaberto?!

Bernadette é uma personagem autêntica. Reservada, misteriosa e excêntrica, ela é dona de uma personalidade forte, do tipo que não está nem aí para o que os outros pensam dela. Além disso, a autora usa um contraste muito bacana entre as mães da escola onde Bee estudava e Bernadette, enquanto as outras queriam parecer perfeitas, tenho uma vida ótima, obrigada, a matriarca da família Branch sabia que era imperfeita, se aceitava assim e não tentava passar algo que ela não era, esse com certeza é um dos pontos mais altos da história para mim.

Já Bee é doce, com sua inocência e sua inteligência é fácil se apegar à personagem. No começo eu podia jurar que pelos diálogos na história ela tinha uns 9, 10 anos, depois que eu percebi que ela tinha 15 (!!!). O fascinante nessa personagem é que apesar de tudo o que acontece em sua vida, ela não perde a esperança, o desejo de saber onde a mãe está e entender tudo. Apaixonante!

E além de toda essa genialidade, há mais um elemento que torna a obra ainda mais atraente e chamativa: o design. A capa é de uma riqueza sem tamanho, além de ter uma diagramação excelente e folhas amareladas. Os e-mails e recados que mencionei no começo desta resenha estão por toda a história, o que deixa a leitura ainda mais dinâmica e rápida. Só tenho que dar os mais sinceros parabéns à Companhia das Letras pelo lindo material que eles proporcionaram aos leitores, ficou incrível!

Uma história imprevisível e ousada sobre relações familiares e a imperfeição humana, Cadê você, Bernadette? é uma obra inovadora que ganhou meu coração por tudo o que o livro representa. Obrigado, Maria Semple, foi inesquecível.


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