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28 de agosto de 2014

A Extraordinária Viagem do Faquir que ficou preso em um armário Ikea (ufa!), de Romain Puértolas

Autor: Romain Puértolas
Páginas: 256
Ano: 2014
Editora: Record

SINOPSE: A figura de um faquir está associada à meditação, ao treinamento e à magia. Mas, no caso de Ajatashatru Ahvaka Singh, é mais provável que o público se depare com truques e trapaças. A última de suas artimanhas foi convencer sua aldeia a pagar por uma viagem a França para adquirir a Camadepregösa, um modelo de cama de pregos vendida pela Ikea. Só que ele não contava em ficar preso dentro de um dos armários da loja. Nem que o móvel seria despachado para outro país. Assim, o faquir e seu turbante partem para uma aventura, ainda que involuntária, pelo mundo, fazendo uma horda de inimigos, alguns amigos e aprontando muitas confusões pelo caminho.

Segundo o dicionário, faquir é o nome dado ao indivíduo que se exibe submetendo-se a suplícios e jejuns para dar provas de resistência a dores físicas e privações e neste romance nos deparamos com um pra lá de espertinho. Estamos falando de Ajatashatru Ahvaka (pronuncie Achata já a tua vaca), um faquir trambiqueiro que gosta de passar a lábia nas pessoas e ganhar algum dinheiro fácil sobre isso; seja entortando colheres, encantando cobras ou deitando sobre cama de pregos. 

Mas não pensem que essas características de Ajatashatru sejam um ponto negativo. Pelo contrário, o personagem é um prato cheio justamente por isso: ele é bem-humorado, bastante trapalhão e quando fica preso no armário se torna um tanto filosófico. Aquela velha história: a receita para dar certo é um pouco de cada coisa, na medida certa, nem demais, nem de menos.

As confusões que Ahvaka apronta são bastante inusitadas e um tanto engraçadas. O momento que ele pede ao taxista para o deixar na loja Ikea é quando todo o rolo se inicia. Entretanto, o nosso faquir aqui não é só desastrado como se imagina: ele é humano. Nessa aventura acontece um pouco de tudo: ele se apaixona, faz amigos (que nunca pensou que faria) e ainda mais: se transforma pessoal e mentalmente. É muito interessante observar a mudança que ocorre em um ser humano diante de algumas situações vividas.

Outra questão que o livro aborda é sobre as imigrações clandestinas. Romain Puértolas consegue transcrever a dura vida dos imigrantes ilegais, uma realidade nua e cruel, sem escrúpulos, forte e chocante. Muitos nem pensam em como essas pessoas se sentem ou a razão pelo qual fazem essas travessias ilegais, mas o autor consegue de uma forma muito realista e "sub-humana" mostrar isso; afinal, ler alguns trechos é como encarar de fato a realidade. Uma vida injusta que muitos julgam apenas como “sorte de alguns, azar de outros”, mas ninguém para e pensa em quem está envolvido nisso.  
“... até mesmo os clandestinos tinham honra. Desprovidos de seus bens, seus passaportes, suas identidades; aliás, talvez essa fosse enfim a última coisa que lhes restava. A honra. Por isso que eels partiam sozinhos, sem mulher nem filhos, para que nunca os vissem assim. Para que se recordassem deles grandes e fortes. Para sempre.” — página 77.
O autor é um mestre na narrativa e o livro foi um dos melhores que li no ano; Puértolas sabe como cutucar uma ferida aberta de uma forma bem humorada sem deixar de ser crítica. A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea fala sobre as imigrações ilegais e sobre a transformação do ser humano. Um livro bem humorado e crítico, que recomendo para todos.